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Publicações que circulam nas redes sociais incentivam consumidores a deixar de comprar de comerciantes identificados como simpatizantes do PT. Ministério Público alerta para possíveis consequências judiciais, enquanto entidades defendem o respeito à liberdade de opinião.
Entidades empresariais e autoridades da região de Ribeirão Preto manifestaram repúdio à circulação de listas nas redes sociais e em aplicativos de mensagens que incentivam o boicote a empresas e comerciantes supostamente favoráveis à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As publicações começaram a circular após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), e citam estabelecimentos de Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Franca, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos e Cajuru.
As mensagens incentivam consumidores a não comprar produtos, contratar serviços ou manter relações comerciais com os estabelecimentos mencionados. A iniciativa provocou reação de representantes do setor empresarial, do poder público e do Ministério Público, que alertam para os riscos de transformar divergências políticas em perseguição econômica.
O promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa, que atua nas áreas de direitos humanos e inclusão social em Ribeirão Preto, afirmou que a elaboração e o compartilhamento das listas podem gerar responsabilização nas esferas criminal e civil.
Segundo o promotor, dependendo das circunstâncias, a conduta pode configurar injúria, por atingir a dignidade das pessoas expostas. Empresários que comprovarem prejuízos financeiros decorrentes da divulgação também poderão buscar indenização por danos materiais.
O Ministério Público orienta os comerciantes que se sentirem prejudicados a procurar a polícia e registrar boletim de ocorrência. A investigação poderá ajudar a identificar os responsáveis pela criação e disseminação das publicações.
Em Serrana, o empresário Francisco Meghelli, proprietário de uma imobiliária, afirmou ter sido surpreendido ao encontrar sua empresa em uma das listas, após manifestar apoio à candidatura de Lula.
Ele classificou a iniciativa como uma tentativa de intimidação e defendeu o respeito às diferenças políticas.
Na mesma cidade, o comerciante Junior Andrade, dono de uma casa de açaí, relatou que seu estabelecimento foi incluído nas publicações mesmo sem que ele tivesse declarado preferência partidária. Segundo ele, a situação provocou receio entre os funcionários, e uma trabalhadora teria sido insultada por um motociclista.
Em Brodowski, a veterinária Elaine Cristina Sobral ressaltou que nunca condicionou o atendimento aos clientes às suas preferências políticas. Já em Ribeirão Preto, o empresário Carlos Sturari, proprietário de um bar na região central, criticou os efeitos das listas sobre comerciantes, trabalhadores e suas famílias.
Os relatos evidenciam a preocupação de profissionais que temem sofrer perdas financeiras ou hostilidade em razão de suas convicções políticas — ou mesmo por serem associados a elas sem terem declarado apoio a qualquer candidato.
A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) divulgou posicionamento contrário ao uso de divergências políticas como justificativa para hostilizar ou desqualificar empresas.
A entidade destacou que o ambiente empresarial reúne pessoas com diferentes visões de mundo e que a defesa dos interesses econômicos deve ocorrer independentemente das convicções políticas de cada empreendedor.
O Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto e Região (Sincovarp) também repudiou a discriminação comercial por razões político-partidárias. A entidade defendeu que, encerrada a eleição, é necessário respeitar o resultado das urnas e retomar o diálogo para enfrentar os desafios econômicos.
O prefeito de Ribeirão Preto, Ricardo Silva, também criticou as listas e alertou que alguns dos comerciantes citados sequer teriam manifestado apoio político, o que amplia o risco de exposição injusta e de prejuízos para os negócios.
A circulação das listas reacende o debate sobre os limites entre a liberdade de expressão e práticas que podem configurar ofensa, discriminação ou intimidação.
O direito de manifestar preferências políticas é assegurado, assim como a liberdade de cada consumidor de escolher onde comprar. Entretanto, a exposição de pessoas e empresas com o objetivo de constrangê-las ou prejudicá-las pode gerar consequências jurídicas, conforme o conteúdo divulgado e as circunstâncias de cada caso.
A orientação das entidades é que a divergência política não seja transformada em instrumento de hostilidade. O desafio, neste momento pós-eleitoral, é preservar o respeito às diferenças e impedir que disputas partidárias atinjam comerciantes, trabalhadores e famílias que dependem da atividade econômica regional.